Estaria o humano retrocedendo em seu nível civilizatório?

A violência (lato sensu) como padrão preponderante…

Parte I

Um contexto…

“Nós somos os assassinos mais implacáveis e inconscientes  do planeta Terra” (Fields, 2016; Koffler, 1976). 

O ser humano nunca se conformou, desde remotíssimas eras, com sua “herança original”, aquela que lhe ditava ser mais uma espécie dentre as milhões de outras que com ele sempre coexistiram. Sua capacidade como espécie racional, inteligente e criativa, à medida em que ia sendo descoberta em suas nuanças, ademais de a princípio intriga-lo, lhe sinalizava um diferencial competitivo em sua convivência natural: o discernimento sobre quem seria sacrificável e quem não. Curiosa e bizarra qualidade fundamentada no libre arbítrio humano, a seu bel-prazer.


“Libre arbítrio e liberdade são dois modos distintos de entender a capacidade do ser humano para autogovernar-se”, diz-nos Alonso-Fernández (2006:26).

Não ingressaremos a um debate sobre libre arbítrio e liberdade (deixemos que o leitor opte por escolher se vale a pena se aprofundar ou não neste sentido); apenas e a título de breve ilustração, digamos que ambos os conceitos não possuem o mesmo significado, mas sim que são dois caminhos distintos de entender uma capacidade humana: a de livremente atuar (livre arbítrio)

Para Immanuel Kant (1724-1804), obstinado defensor da liberdade, o libre arbítrio teria menos a ver com a metafísica e mais com a liberdade de escolha do indivíduo humano – no que somos levados a concordar, pois parece-nos cordato com a regular eleição do seu comportamento pontualizado, segundo determinantes de cunho personalíssimo -. No próprio discurso-fundamento do laureado filósofo prussiano,

“Se o homem fosse apenas sensibilidade, suas ações estariam determinadas por impulsos sensíveis. Se fosse unicamente racional, seriam necessariamente determinadas pela razão. Porém o homem é ao mesmo tempo sensibilidade e razão, e pode seguir os impulsos dos desejos ou pode seguir os impulsos da razão, e é nesta capacidade de eleição que consiste a liberdade que possui o homem” [grifos nossos] (KANT apud BOVER, 2012:29).

Pois bem. Considerando que nosso objetivo, para este breve “desenho a traços”, não é filosofar, mas sim discutir questões sociais de índole comportamental segundo um restrito leque composto por aquilo que consideramos “pontos-chave da pós-modernidade”, sigamos neste nosso devaneio, agora com foco mais crítico e pontualizado.

Preliminarmente, vale destacar que nossa longa experiência de vida em diversos rincões deste castigado e multifacetado planeta, prestou-se a municiar-nos com um rico acervo de “cases” experimentais (todos devidamente registrados) segundo uma gama variadíssima de situações que flutuam entre dois extremos: do absolutamente racional ao bizarramente irracional. Não se assombre, caro leitor, pois, segundo já o expressei e fundamentei em minha tese de 1976 – “O Homem: esse projeto mal-acabado” -, o ser humano, paradoxalmente, já provou e mais que comprovou ser um produto falho, defeituoso, carcomido por sua degenerada gana destrutiva,  quando comparado às demais espécies que com ele coabitam este depauperado e agonizante planeta.

Por que seria “mal-acabado”? Parece fácil dize-lo, mas torna-se complexo explica-lo, o que não nos impede de intentar faze-lo. Tudo o que é “mal-acabado” pressupõe algo defeituoso, falho ou putrefato em sua estrutura, apresentação e/ou utilidade. Assim, dito conceito é bastante amplo para abranger “defeitos de estrutura, de formação, de caráter, de personalidade, de postura” e por aí vai. “You name it!” (“diga você!”), exclamar-se-ia em Inglês. O certo é que, se nos reportássemos à “perfeição humana”, tão aclamada pelas religiões, sociólogos e filósofos “dessintonizados”, estaríamos cometendo uma das mais grosseiras e fantasiosas falácias já vistas e ouvidas na história humana!

Deste breve e sumariado relato já é fácil deduzir que somos uma espécie em total decadência e, hoje, preponderantemente autofágica. Tomando o exemplo ilustrativo de nossa pátria (Brasil), é cristalina a imagem de decadência, desagregação, desordem e retrocesso, contradizendo grosseiramente o tão honroso lema que ornamenta nosso pavilhão nacional (hoje literalmente enlameado pela ação deletéria, principalmente de políticos e cidadãos comuns, ostensiva e levianamente descomprometidos com a pátria amada)!

Todavia, não nos iludamos. Tão deplorável “fenômeno” não é nem nunca foi “exclusividade” de uma nação, uma região, um continente. Ele é inerente à nossa espécie (humana), paradoxalmente classificada como Homo Sapiens Sapiens. Como toda classificação científica, está fundamentada em quadros intelectuais que parecem atender à mera e fria Academia. Como se fosse humanamente possível que o próprio ser humano se auto-avaliasse sem, nem por um microssegundo, ser tendencioso e auto-elogioso. Classificações demandam a inteligência de terceiros não envolvidos no que se está pretendendo classificar. Mesmo que esses “terceiros” sejam frias ferramentas de “inteligência artificial”.

A título de complementação desta Primeira Parte…

Quer se queira, quer não, todos os indicativos sociais, conjunturais, estruturais, filosóficos, políticos, científicos, apontam claramente para um sistema em franca decadência que vem minando a sociedade como um todo, como se estivéssemos num verdadeiro e incômodo “processo de regressão”

Basta que o cidadão racional, mais atento e comprometido com o “porvir” próprio e de todas as espécies que com ele convivem, se detenha por um curto lapso temporal e, como se fosse mero expectador, observe seu entorno até onde lhe alcança sua capacidade (visual, emocional, intelectiva, retrospectiva) e reflita segundo singelos padrões comparativos, buscando a tão propalada “luz no fim do túnel”. Mui provavelmente, não a encontrará ou, se a encontrar, poderá se deparar com uma desagradável e inesperada surpresa: 

Somos fruto, desde nossos primórdios, da tutela de falsos deuses que ainda hoje subsistem, na insana intenção de guiar nossas ações e tergiversar nosso próprio e intelectualizado entendimento. 

“Algumas centenas de milhares de anos foram suficientes, em razão do temor ao desconhecido, para que nos curvássemos ao mesmo e APRENDÊSSEMOS a consentir em base ao doentio medo daquilo que nunca saberemos explicar, muito menos assimilar, optando então pela “prática submissão” a tudo àquilo que foge ao nosso ainda primitivo conhecimento” (J.Koffler, 1976).  

ALONSO-FERNÁNDEZ, Francisco. El hombre libre y sus sombras: una antropología de la libertad. Los emancipados y los cautivos. Barcelona (España): Anthropos Editorial, 2006, pp. 25-16.

BOVER, Jan. Cómo vivir feliz sin libre albedrio. Manlleu: Javajan, 2012

FIELDS, Douglas. Os seres humanos são geneticamente predispostos a matar uns aos outros. Nova York (USA): Sussex Publishers, 2016.

KOFFLER, Juan Y. O homem: esse projeto mal-acabado [tese de doutorado]. Montevideo: S.E.D, 1976. 

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