“Marcuse é culpável”

(Texto traduzido e reproduzido do original em Espanhol, MARXde autoria de Francisco José Contreras, publicado originalmente em 26 de outubro de 2018 no site “Disidentia” – Disponível em: <https://disidentia.com/marcuse-es-culpable/&gt;). Tradução e interpretação: Juan Koffler – Brasil.

“Sou o espírito que sempre nega [Ich bin der Geist, der stets verneint]”, disse de si mesmo o Mefistofeles de Goethe. A esquerda, susteve Roger Scruton em Fools, Frauds, and Firebrands, é mefistofélica: o que a define é sua “essencial negatividade”, seu “grito contra o vigente em nome do desconhecido” [grifamos]: critica implacavelmente as imperfeições reais ou imaginárias da sociedade atual sem propor outra alternativa que, no melhor dos casos, nebulosas utopias (no pior, a simples reedição do que uma e outra vez – de Lênin a Mao, de Pol Pot a Castro ou Chávez – tem desaguado em fossas comuns e filas para comprar papel higiênico).

pobreza absoluta há diminuído nos últimos 25 anos a uma velocidade nunca vista na história, porém a esquerda se esforça para ver a economia global como um espólio sistemático dos “países empobrecidos” pelos “exploradores” (e dentro dos países ricos, como um “austericídio” que teria “aos de baixo” na miséria). As mulheres usufruem no Ocidente de uma igualdade com o homem que teria resultado inimaginável há apenas umas décadas: a esquerda nos diz que em realidade vivem num inferno de discriminação, “brecha salarial”, acosso #me too [#eu também] [Fundadora de #MeToo Asia Argento é denunciada de assédio sexual contra menor de idade] e violência de gênero. E o mesmo poderíamos dizer das relações entre as raças, a situação dos homossexuais, e outros assuntos.

“Caracteriza ao intelectual de esquerda uma autoatribuída lucidez que lhe permite descobrir a enfermidade sob a aparente saúde. A mentira que subjace à enganosa verdade”.

A operação favorita da esquerda é o desmascaramento, e seu sinal de pontuação preferido são as aspas irônicas com as que alguém mostra que engoliu a pílula vermelha e que não acredita na “liberdade”, “os direitos” ou “o bem-estar” que nos oferece “o sistema”. Por isso usa-se dizer que os pais da esquerda são pelo menos três “pensadores da suspeita”: Marx, Nietzsche e Freud. Cada um deles nos ensinou a desconfiar – de formas diversas – de nossa racionalidade, nossa percepção e nosso sentido moral.

Mas hoje desejo voltar a esse 1968 do que temos tratado já várias vezes (e não apenas porque se cumpra o cinquentenário, mas porque então abriu-se um ciclo histórico no qual seguimos submersos). Do Maio francés disse Jacques Baynac que foi “a primeira revolução da história produzida, não pela miséria, mas pela abundância”. Efetivamente, a geração que tinha 20 anos em 1968 era a primeira que havia sido criada na suficiência (não em vão John K. Galbraith falou em “affluent society”) – com televisão, carro e eletrodomésticos – e que havia acedido maciçamente à educação superior. Europa vivia “os Trinta Gloriosos”: três décadas com taxas de crescimento que giravam um 5% anual.

Entre os pensadores que inspiraram aos soixante-huitards destaca Herbert MarcuseO homem unidimensional fue publicado em 1964, o ano em que chegava

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à Universidade a primeira promoção de baby boomers, se desmantelava definitivamente em EUA a segregação racial e Ocidente podía festejar por fim a erradicação da miséria. Ah, porém toda essa bonanza, afirmava a “terceira M” dos anos 68 (Marx, Mao, Marcuse) não era mais que uma sutil corrente: “a produtividade [da affluent society] destroi o livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas; sua paz se mantém mediante a constante ameaça de guerra; seu crescimento depende da repressão das verdadeiras possibilidades de pacificar a luta pela existência”. Pese ao espelhismo de liberdade, “a dominação da sociedade sobre o indivíduo é imensamente maior do que nunca”. O fato de que as pessoas não se sintam oprimidas é precisamente o sinal diferencial da ditadura perfeita: “Os indivíduos e as classes reproduzem a repressão sofrida melhor que em nenhuma época anterior, […] [pois a repressão tem lugar] sem um terror aberto: a democracia consolida a dominação mais firmemente que o absolutismo”. Falsa democracia, falsa liberdade, falso bem-estar. Não devemos acreditar o que nos mostram nossos próprios olhos: o filósofo freudomarxista sabe mais, e nos adestra na desconfiança universal.

Poderemos celebrar que a classe baixa goze agora comodidades e diversões antes reservadas aos mais abonados? Não, pois isso significa que todos ficamos por igual presos pela rede de “falsas necessidades”: “Se o trabalhador e seu chefe se divertem com o mesmo programa de TV e visitam os mesmos lugares de recreio; se a mecanógrafa se veste tão elegantemente como a filha do seu chefe; se o negro possui um Cadillac […], esta assimilação indica, não a desaparição das classes, mas a medida em que as necessidades e satisfações que servem para a preservação do sistema estabelecido são compartilhadas pela população subjacente”.

É Marcuse simplesmente um crítico do materialismo consumista, e está propondo um retorno à religião e ao espiritual? Certamente que não, já que reconhece que as igrejas estão repletas (falamos de 1964), porém isso é um sinal a mais da alienação geral: “O domínio de tal realidade unidimensional não significa que reine o materialismo e que desapareçam as ocupações espirituais e metafísicas. Pelo contrário, há muito de “oremos juntos esta semana”, “por que no provas a Deus?” […]. Porém estes modos de protesto e transcendência já não são contraditórios ao statu quo e tampouco negativos”.

“Como o Pablo Iglesias que ‘se emociona’ ao ver como é chutado um policial, Marcuse vibra com as guerrilhas terceiromundistas capazes de pôr em cheque o Ocidente”.

Portanto, não se reprocha – ou não só – ao statu quo que seja materialista, mas que seja… o statu quo. O páthos do freudmarxismo é a negação mefistofélica, a rebeldia pela rebeldia, a “grande rejeição”: “Ter medo de ser demasiado negativo, o desejo compreensível de ser um pouco mais otimista […] são boas intenções que alimentam ilusões, desviam e debilitam a oposição, ao tempo em que favorecem ao regime estabelecido”.

Marcuse, por outro lado, constata o “aburguesamento” da classe trabalhadora e sabe que terá que recrutar em outros setores aos indivíduos capazes de uma rejeição radical a todo o vigente. Como para Michel Foucault, sua esperança está nos marginalizados, os desequilibrados, os imigrantes, os homossexuais… (“o substrato dos procritos e estranhos, os explorados e os perseguidos de outras raças e outras cores”): afortunadamente,  todavia “existem forças e tendências que podem fazer explodir a sociedade”. Como o Sartre do prefácio a Les damnés de la terre – e como o Pablo Iglesias que “se emociona” ao ver como é chutado um policial – Marcuse vibra com as guerrilhas terceiromundistas capazes de pôr em cheque ao Ocidente: os argelinos do FNLA (que, após expulsar aos pieds noirs e massacrar aos harkis, conseguiram afundar o país na ditadura e na pobreza), os norvietnamitas do Vietcong (Marcuse morrerá em 1979, justo quando centenas de milhares de boat people intentam fugir do Vietnã finalmente entregue ao “grande rechaço”): “Estes ‘condenados da terra’ […] são povos inteiros e não têm de fato outra coisa que perder a não ser sua vida ao sublevar-se contra o sistema dominante”.

E quando tenhamos conseguido destruir esta sociedade tão repressiva, o quê colocaremos  em seu lugar? À hora de desenhar alternativas, Marcuse se mostra tão impreciso como os demais pensadores da Grande Negação (incluindo o Marx que disse que o comunismo consistiría em “caçar pela manhã, pescar ao meio-dia e exercer a crítica ao entardecer”). A destruição da sociedade produtivista-competitivo-agressiva permitirá a eclosão espontânea de um paraíso em que a automação nos livrará da necessidade de trabalhar e onde as “falsas necessidades” serão substituídas pelas “verdadeiras”. Num desses jogos de palavras aos que Marx também era tão aficionado, Marcuse nos explica que então já não teremos (falsa) “liberdade econômica”, mas (verdadeira) “liberdade da economia” (isto é, que estaremos liberados da obrigação de trabalhar e ganhar-nos a vida).

“A liberação social permitirá uma liberação sexual inédita, que incluirá a desaparição da odiosa família tradicional”.

Ademais, a liberação social permitirá uma liberação sexual inédita, que incluirá a desaparição da odiosa família tradicional. Freud havia chegado a reconhecer – em O mal-estar na cultura” – que a contenção do instinto sexual era necessária para o equilíbrio psíquico e para o progresso da civilização (pois o instinto sexual reprimido pode convertir-se – mediante o mecanismo psíquico da “sublimação” – em criatividade artística ou científica, e em denodo laboral). Marcuse, freudiano inconsequente, afirma que a repressão sexual não é consubstancial à espécie humana, mas só ao modelo econômico capitalista. Após a revolução gozaremos, não apenas da folga infinita, senão também do fornício indiscriminado. Ademais, retornaremos a uma sexualidade polimorfa e imaginativa – que incluirá tudo o que atualmente é rejeitado como “perversões” – pois a centralidade do coito é também uma imposição cultural do capitalismo, necessitando de uma alta natalidade que assegure a renovação da força laboral.

Este é o culto que inspirou – em maior medida que qualquer outro – a grande revolução contra-cultural dos 60-70, em cuja esteira ainda vivemos. Conseguiu inocular a toda uma geração de jovens o desprezo a sua própria sociedade e cultura. Os exortou ao amor livre e à desconstrução da família. Porém, o paraíso pós-produtivista não chego u. As “verdadeiras necessidades” do homem livre resultaram ser as de passar o dia abismado no celular e o computador. E hoje Ocidente, que rejeitou a “imposição cultural da natalidade”, aproxima-se à insustentabilidade por falta de relevo .

 

 

 

 

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