Brasília: elefante branco ou ostentação criminosa¹?

BRASILIA
A futurística capital brasileira e o bizarro contrassenso em relação ao seu desempenho político-gestor.

Capital federal do Brasil, Brasília foi a realização de um sonho (de grandeza e de dinheiro): o sonho do festejado arquiteto Oscar Niemeyer, seu colega Lúcio Costa e as bilionárias elucubrações artísticas que, segundo relatos fidedignos, custou – a valores atualizados – algo em torno dos US$ 83 bilhões. Uma cifra deveras impressionante para a época (1956) e, convenhamos, para a própria situação do país (que nunca foi das melhores e assim persiste). Aliás, o contraste entre a ostentação perdulária de Brasília e o desempenho político (à época e hoje ainda muito mais gritante, negativamente falando), deixam patente a total falta de visão e de responsabilidade política e social (que hoje ainda vige) dos nossos representantes com nossa castigada (e em grande parcela, alienada) sociedade.

                    Prioridade superior do então presidente Juscelino Kubitschek (JK), o sonho (também deste) concretizou-se em apenas três anos. Nas palavras do jornalista Otto Lara Rezende (apud SCHUARCZ & STARLING,  p. xcviii), “Brasília foi o produto de uma conjunção rara de quatro loucuras: a de Juscelino, de Israel, Niemeyer e Lúcio Costa”. Estes estudiosos ainda reforçam suas opiniões com as quais coincidimos:

“Nunca se soube ao certo quanto custou Brasília. Tampouco se sabe quantos operários morreram na pressa da construção, se é verdade que seus cadáveres foram enterrados com máquinas escavadoras junto às próprias edificações, se de fato existiu a prática de castigos corporais contra trabalhadores, e se realmente eles protestaram por melhores condições de vida e de trabalho. Sabe-se apenas que os milhares de operários vindos sobretudo do Nordeste, de Goiás e do norte de Minas Gerais – os candangos – só moraram em Brasília quando aquilo era canteiro de obras. Concluída a capital e instalado o governo, tiveram poucas opções: ou foram devolvidos aos seus estados natais, ou foram viver segregados em acampamentos semelhantes a favelas, na periferia” – as famigeradas “cidades-satélites” como são conhecidas hoje -.

                      Isto resultou, nos primeiros dez anos da novel e portentosa Brasília, em nada menos que 100 mil migrantes transformados em favelados, contrastando com a pomposidade, luxo e esnobação descabida desse verdadeiro elefante branco, reduto de todas as mazelas da nação, promovidas diuturnamente por políticos inescrupulosos e criminosos de lesa-pátria.

FAVELAS BRASILIA.jpeg
Fabelas Flor Nascente e Pôr do Sol

                   Assim, logo a super-moderna, arrojada e futurística capital acordaria, certo dia, cercada por largos bolsões de pobreza empanando visão tão inovadora e pós-moderna, paga literalmente a peso de diamante. “Esnobação” seria um adjetivo inócuo (em relação à realidade) a ser exposto e ostentado nos acessos ao distrito federal.

“De acordo com uma projeção feita pelo professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília Frederico Flósculo, o quadrante formado por Ceilândia, Samambaia, Santo Antônio e Águas Lindas pode ser todo ocupado e virar uma mega favela com 1 milhão de habitantes até 2030. «Esses dois sóis estão bem próximos ao principal eixo de urbanização do Distrito Federal e são o começo do futuro de uma Brasília favelizada», alerta o especialista em urbanismo” (TAHAN & CAMPBELL, 2014).

                     O certo é que, até o presente, ainda não conseguimos compreender (muito menos, assimilar) os “fundamentos” do projeto Brasília. Em nossas amplas andanças mundo afora, nem os Estados Unidos da América (símbolo-mor do capitalismo), nem a portentosa e austera Londres ou outros grandes e tradicionais centros mundo afora, possuem tão grotesca e agressiva ostentação, mesmo sendo potências econômicas, políticas e bélicas do globo. Como, então, deglutir a petulante esnobação dos nossos políticos à época – mormente considerando as históricas mazelas que nos afligem, dentre as quais sobressaem com maior ênfase a grosseira desigualdade social, os elevadíssimos índices de pobreza, os gravíssimos problemas das infraestruturas rodoviária, aeroviária, hidroviária, ferroviária (praticamente inexistentes)? -. E isto sem falarmos em outros setores depauperados, tão ou mais importantes, dependendo desde qual ponto de vista se esteja a observar: educação (em sentido lato); moradia; infraestrutura citadina; sistema público de saúde; serviços sociais (em amplo termo); segurança pública (abaixo do paupérrima); absorção laboral; empreendedorismo; indústria, comércio e serviços; enfim, a lista de paradoxos parece interminável, apontando para a necessidade urgente-urgentíssima de se repensar a nação no seu todo. Sem esquecer – é claro! – de se reconstruir e regenerar todo o sistema político (apodrecido) da nação, a começar pela drástica redução do número de partidos políticos! Algo inadmissível em qualquer nação minimamente socializada, coerente e progressista.

UM PARADOXO CHAMADO “BRASIL” (OU SERIA “HUMANO”)?

                     Os suntuosos espaços destinados à política, na capital federal, demandaram uma verdadeira legião de trabalhadores das mais diversas áreas e os indefectíveis “aspone’s” ². São tantos os cargos, as assessorias, as sub-assessorias, as secretarias, as sub-secretarias, os departamentos, as divisões, etc., que o contingente de funcionários públicos que ali servem representava em termos absolutos, em 2014, 5,3% de todos os servidores públicos do país. Em Brasília, “uma em cada cinco pessoas trabalha na administração federal” (PASSARELLI, 2014), contabilizando nesse ano ora referenciado nada menos que meio milhão de pessoas trabalhando em todo o Distrito Federal.

               Há em todos estes indicadores um grotesco paradoxo. Observemos, primeiro, o crescimento do número de municípios no período 1940 ⇒ 2009, conforme a tabela a seguir:

NÚMERO MUNICÍPIOS BRASIL 1940-2009
Extraído de FERRARI (2016:57)

 

              As expansões mais ostensivas se deram entre os anos 1950-1960 e 1960-1970, fácil perceber-se. A Tabela 2 (seguinte) mostra a variação populacional entre os anos 1940 e 1970, i.e., englobando os períodos acima: 93,79%.  Neste mesmo período de 30 anos, a variação no número de municípios, no entanto, foi de 151,08% (!).

TABELA 2
Extraído de FERRARI (2016:58)

                    Foi logo após instalado o Regime Militar (1964) que ergueu-se uma barreira normativo-legal a essa proliferação desenfreada de municípios. A Lei Complementar nº 1/1967 determinava, em seu Art. 1º, que a criação de municípios passava a depender de lei estadual  e de requisitos por este diploma legal definidos para tal efeito, mas, fundamentalmente, exigia-se que, com tal objetivo, se comprovasse uma população mínima 10 mil habitantes (Art. 2º, I). Alerta-nos Ferrari (2016:59), ainda, que se tal exigência populacional ainda estivesse em vigência, “metade dos municípios existentes em 2005 não atingiria esse patamar”, complementando:

“Se os mesmos dados forem “deflacionados” do crescimento populacional no período de 1970-2000, conclui-se que mais de 3.500 dos municípios hoje existentes não poderiam ter sido criados, se a Lei Complementar nº 1/1967 permanecesse em vigor (a população mínima seria de 18.230 habitantes)” [grifos nossos].

                   Dados disponibilizados pelo Portal Brasil atinentes ao ano 2013 e atualizados em 2014, dão conta da criação de cinco novos municípios elevando o quantum total do país à cifra de 5.570 municípios (último indicador atualizado). Observem que, se a lei supra-citada de 1967 continuasse em validade, dito total situar-se-ia na casa de 2.070 municípios (!). Por que a menção insistente deste indicador? Simples:

  1. Iniciemos apontando para um fato inexcusável: a Constituição Federal de 1988 ratificou a burocracia (ou o burocratismo) como nunca antes na história do nosso país (!). Uma análise do economista, sociólogo, político e advogado, Luis Carlos Bresser-Pereira (1988:41), aponta para um fato emblemático neste sentido: “[…] as forças democráticas populistas que assumiram o poder em 1985, embora contando com a ativa participação da burocracia, eram também em boa parte constituídas por setores da esquerda e burocráticas, que não tiveram dúvida em buscar restabelecer no país – ou estabelecer – uma administração pública burocrática” [grifos nossos].
  2. Em 1988, surge a nova Carta Magna da República, responsável – segundo Bresser-Pereira (op.cit., p. 43) – pelo “enrijecimento burocrático extremo” pari passu com um patrimonialismo perverso que acabou redundando no alto custo e baixa qualidade da administração pública; fator que ainda hoje é ostensivo e carreia à nação e sua sociedade (sentido lato) gravíssimos problemas de subsistência ponderada (o famigerado “custo Brasil”).
  3. Deste cenário deriva uma forte crise de legitimidade do Estado-Nação, associada ao desencanto social generalizado que, por seu turno, redundou no total descrédito no sistema político nacional (CASTELLS, 2001 apud COSTA, 2012:13). Ao final, voltaremos a este tema como encerramento deste artigo.

                       Em suma e para completar o bizarro quadro político-econômico-social hoje existente, lembremos que toda essa situação crescente e ignominiosa transbordou a partir da ascensão ao poder (central e periférico), em 2003, de partidos ostensivamente de esquerda capitaneados pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e associados (todos de corte comunista), tendo à frente a figura peçonhenta e escabrosa do senhor Lula da Silva e sua “trupe” familiar. Brasil ingressou, naquele fatídico ano, ao círculo mais destrutivo e infernal nunca sequer imaginado pelo genial e imortal Dante Alighieri ³.

 O PARADOXO BRASIL OU O “PARADOXO HUMANO”?: UMA INCÔMODA REFLEXÃO FINAL

                      Defendo desde 1976 (quando traduzi meus pensamentos e convicções em trabalho acadêmico) uma tese solidamente firmada em fatos, juízos e argumentos inatacáveis:

O ser humano é uma espécie no mínimo paradoxal: serve-se de suas exclusivas qualidades e diferenciais – que o distinguem das demais espécies -, para se auto-destruir, destruí-las e destruir seu meio vital. Algo deveras bizarro e, mais que isso, monstruoso!

                    Cornelius Castoriadis (1922-1997), laureado filósofo, economista e psicanalista francês, ao analisar comparativamente o psiquismo animal em relação ao mesmo atributo humano, situa a grande diferença entre eles como pertencente às características psíquicas de ambos: enquanto no animal sua psique permanece inalterada em relação aos seus determinantes referenciais (canônicos), no humano sua psique sofre um processo de rompimento e de distorcionamento. Fabio Giraldo Izaza (1999:54) explica:

“[…] para os animais há um representante canônico da pulsão, um representante obrigado: o objeto sexual para um cachorro não pode ser mais que uma cadela e essa pulsão não pode ser satisfeita senão por um coito canônico. Para o humano o objeto sexual pode ser qualquer coisa e a pulsão sexual pode ser satisfeita pelos atos mais inverossímeis” [grifos nossos].

                       Não é preciso desenhar para que isto seja compreensível. Não é apenas o Brasil que sofre uma sucessão escandalosa e histórica de desmandos; agressões sociais de toda espécie e monta; auto-destruição política e caos governamental; descontrole massificado e alienação social; descomprometimento com o semelhante, com a família e com a pátria; desprezo e criminosas agressões ambientais; dentre tantas e tantas mazelas que a sociedade brasileira cria e recria diuturnamente, incansavelmente, inescrupulosamente, criminosamente.

                      Todavia e curiosamente, sua sociedade alienada (e alheada) obra como se nadasse em benesses, vivesse num reino maravilhoso do “faz-de-conta” (carnaval, futebol, festerês, ostentação, olimpíadas, política), negando-se a reagir ao privilegiar em primeiro e distanciado lugar aquilo que se situa em seu microcosmo, ou seja, que não ultrapassa o restrito horizonte da ponta do seu nariz. Este fenômeno – não se engane o leitor – difere em parcos detalhes quando se o compara com a realidade de outras nações do planeta (de polo a polo), o que permite inferir, com aguda certeza, que o cerne do mal reside no ser humano: esse bizarro e mal-acabado projeto, aborto da natureza.

                     Convençam-se: só há uma única solução para o castigado planeta Terra, e esta parte necessariamente do pré-requisito inamovível e inegociável da completa destruição da espécie humana. Enquanto isto não ocorrer, as mazelas e desastres de toda espécie e monta continuarão a ocorrer, crescentemente, até a total extinção desta degenerada e criminosa espécie, paradoxalmente descendente de “algo” historicamente conhecido como “Homo Sapiens”!

*** 

[1] O adjetivo “Criminoso”, constante do título deste despretensioso ensaio, em absoluto objetiva uma conotação pejorativa, mas sim contestadora, quando se observa o contraste brutal que rege nossa sociedade, não apenas no concernente a aspectos econômico-financeiros, senão na deficiente e paupérrima infraestrutura nacional em sentido lato (viário, aeroviário, rodoviário, ferroviário, portuário, de saúde, educacional, etc.).
[2] O significado deste termo pejorativo, mas muito popular (principalmente na qualificação dos servidores públicos), é, literalmente “Assessor de Porcaria Nenhuma”.
[3] Dante Alighieri (1265-1321), escritor, poeta e político florentino (Itália), autor da festejada obra “A Divina Comédia” (publicada pela primeira vez em 1472).

2 comentários em “Brasília: elefante branco ou ostentação criminosa¹?

Adicione o seu

    1. Obrigado pela força, Isa!
      Tento me manter dentro de padrões aceitáveis e éticos em minhas considerações acadêmicas, embora lá no fundinho do meu coração minha vontade seja a de explodir e vomitar toda a verdade atravessada em minha garganta e mente!
      Beijão!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: