Elucubrações “köfflerianas”: Falando com Deus no banheiro… (Série: I de V)

EU ESTILIZADO

“Vivemos numa democracia. Significa dizer que somos donos de uma liberdade até certo ponto ilimitada – desde que nossas ações não ultrapassem a fronteira que nos separa da seara de outrem -; portanto, somos livres, embora não o sejamos no sentido lato do termo, nem nunca o seremos…” (J.Koffler, 1976).

     Jean Paul Sartre (1905-1980), imortal filósofo francês do existencialismo, ousava afirmar que a liberdade, o real, são finitos, o que redundaria em acrescer, por dedução, que a realidade jamais poderá ser bela. Do mesmo modo e servindo-nos da premissa de Sartre, a liberdade jamais poderá ser total nem bela, mas sim, tutelada e limitada pela liberdade de outrem. Portanto, somos livres desde que também permitamos que o outro também o seja. A beleza resta, assim, subordinada aos limites da liberdade e ao caráter efêmero desta.

     Desde que os nossos primitivos ancestrais diretos surgiram na fase da Terra – algo próximo aos 150 mil anos (FOLEY & DONNELLY, 2001), segundo diversas estimativas – nosso percurso vital vem sendo no mínimo paradoxal, conformando uma espécie de curva elíptica, isto é, um processo em perpetuum mobile. Explico com a figura a seguir:

 

EVOLUÇÃO HUMANA
Evolução do gênero Homo (Hominídeos) até o Homo Sapiens Sapiens (aproximadamente 2 milhões e meio de anos) (montagem minha)
HOMO ERECTUS
Bípedes Erectus (África)

     Até esta etapa do desenvolvimento, o humano vinha num processo de transformação e de crescimento (em amplo sentido), indicando sem lugar a dúvida que iria assumir a posição mais destacada entre as milhões de espécies co-existentes com ele no planeta.

     Contudo, o que comprovamos no dia-a-dia é que estamos ingressando (ou melhor, já estamos nele) num processo de involução. Voltaire afirmava em seus escritos: “o homem quanto mais se aperfeiçoa, mais se degrada e se afasta do seu estado natural” (Voltaire in SOLÓRZANO, 1819:136). Muito antes ainda, durante o brilhantismo do antigo período grego, a ideia que preponderava não era a do progresso, mas sim a de um movimento regressivo ou cíclico , parcialmente corroborada pelo cristianismo e sua ideia de evolução única e linear, porém decadente, não ascendente (ÁVILA, 2003). Há, em suma, uma lei natural (facilmente percebida em vegetais, por exemplo) que determina: “Depois de um ciclo de evolução sempre vem um ciclo de involução” . Noutros termos e fazendo uma associação do exposto com os conceitos de desenvolvimento e estagnação/retrocesso, Edgar Morin, diretor emérito do Centro Nacional da Investigação Científica, de Paris (França), procede a uma dicotomia do conceito de desenvolvimento, subdividindo-o em duas direções: (a) o desenvolvimento técnico-científico-econômico, e (b) o desenvolvimento humano, isto é, liberdade, democracia, autonomia, moralidade. Assim entendido, o que se observa – ainda segundo Morin – é que tais fatores de desenvolvimento (ora citados em “b”) têm redundado em subdesenvolvimentos mentais, psíquicos e morais. Em suas próprias palavras, os resultados do desenvolvimento técnico-científico-econômico, acaba redundando no…

“[…] individualismo, no sentido de perda das solidariedades tradicionais; o egocentrismo, que também destrói e esquece as solidariedades, e que se consagra unicamente a seu próprio interesse; a perda de muitas aptidões polivalentes do ser humano pela hiper-especialização de cada pessoa; a perda de muitas faculdades pela adaptação e para enfrentar seu destino” (MORIN apud CUSICANQUI, 2006:93).

     “Cogito ergo sum” (“penso logo existo”) (René Descartes, 1596-1650), eis a diferença que ostentamos ante as demais espécies: somos a única espécie que possui consciência da sua existência, enquanto se mantiver como um ser pensante, consciente (VALDEBENITO, 2007). Mas – pergunto -, até quando? Sim, porque todos os sinais que se acumulam ano a ano, década a década, século a século, indicam que estamos em amplo processo de decadência, de involução civilizatória, aproximando-nos de maneira célere a uma perigosíssima encruzilhada existencial: persistir na autodestruição (da espécie e do planeta) ou repensar criteriosamente nosso modus vivendi e nosso modus raciocinandi, reformulando-o por completo?

     Como diria o festejado escritor romancista austríaco, J. M. Simmel: “só o vento sabe a resposta”

A involução humana: um desafio à lógica

     Primeiro que tudo, a sociedade humana vem quebrando insistentemente uma regra crucial e não é de hoje: “A seleção natural , tanto em tempos de Darwin como hoje, não é senão o êxito diferencial na reprodução. Num mundo de recursos finitos é produzida mais descendência da que pode sobreviver. A noção personifica um simples mecanismo para o progresso. Apenas os melhores são selecionados de cada geração, para produzir a seguinte”  (ELDREDGE & TATTERSALL, 2016:seção 3) [todos os grifos nossos].

     Darwin considerava “evolução” como sinônimo de “sucessão com modificação”, o que presumiria – em tese – que o sucessor seria melhor (mais aperfeiçoado) do que o sucedido, o que, em realidade, não ocorre ou, se se quer, nem sempre ocorre, não podendo ser tomado esse axioma como verdade inatacável. Assim também se enquadraria sua outra assertiva (supra-citada): “Apenas os melhores são selecionados de cada geração […]”. Levado à prática tal axioma, pressuporia que todo e qualquer descendente de um ser, de uma determinada espécie, viria aperfeiçoado a cada nova geração, o que tampouco é verídico. O que há, realmente, é um processo sucessório desregrado às raias do leviano. Se aplicássemos a assertiva de Darwin delimitando-a a um indeterminado núcleo familiar meramente ilustrativo, teríamos que, desse núcleo, cada geração posterior viria aperfeiçoada, o que é deveras uma ostensiva falácia.

     O que Darwin decidiu cognominar de “mudança gradual, progressiva” aplicada às espécies apenas se presta à aplicação em largos espaços temporais que envolvem várias gerações de determinada espécie. Neste sentido, sim poderia se aceitar que, ao longo de inúmeras gerações estas viessem se aperfeiçoando a fim de adaptar-se às alterações do meio e suas condições (climáticas, etc.), o que decididamente não se aplicaria à espécie Homo, que, em sua larga trajetória, vem demonstrando características crescentes de degeneração em sentido lato.

     Observe-se a imagem gráfica ao início deste texto, na qual se expõe a evolução do ser humano ao longo da sua história (\approx 2,5 milhões de anos). Não há dúvidas quanto a sua evolução em diversos aspectos, embora noutros pareça estar regredindo rumo ao mais trágico primitivismo, o que – convenhamos – constitui-se em grosseiro paradoxo. Noutros termos, se expressássemos tal assertiva novamente num gráfico, seria algo semelhante a este:

PROGRESSO REGRESSO HOMO
Ensaio preditivo da evolução/involução humana (montagem minha) 

     Vivemos já um largo momento de tensão que, pelo que tudo indica, tende a piorar. Não se trata de mero fatalismo infundado, mas sim de um cenário calcado em constatações diuturnas que vêm se sucedendo em desabalada corrida, graças ao elevado acirramento de ânimos entre as maiores potências do planeta. Tudo está pendente de um fino e delicado fio de teia de aranhao simples pressionar de um botão, inadvertida ou propositalmente. Lembremos que o ser humano é naturalmente intempestivo, inseguro, instável (emocionalmente falando) – principalmente quando o ego fala mais alto, o que, convenhamos, não é nada incomum; basta observar energúmenos como os Castro, ou o tiranete Kim Jon-un, ou ainda, o degenerado e aloprado Maduro, dentre outros tantos que mancharam e continuam a manchar indelevelmente a longa história humana -.

     Passamos, em tempos modernos, por dois grandes conflitos bélicos mundiais, durante os quais, apenas com armas convencionais, ceifaram-se as vidas de 100 milhões de indivíduos humanos, sem contar com a grotesca e extensa destruição material de cidades inteiras. Hoje, a Espada de Dâmocles persiste ameaçadora sobre nossas cabeças, mas com um poder de destruição praticamente total, sem chances de chorarmos as vítimas, pois um terceiro conflito mundial seria definitivamente terminativo, uma verdadeira débâcle.

Um epílogo nada auspicioso…

     Um robusto estudo realizado por três investigadores científicos espanhóis (VILCHES, MACÍAS & PÉREZ, 2014) (1) e que demandou dez anos de intensos trabalhos, aborda um dos temas mais críticos em nossos dias: “Educação para o Desenvolvimento Sustentável”, cuja tônica concentra-se na formação cidadã consciente – mediante educação formal e também informal -, a fim de tornar possível uma transição para a sustentabilidade. Um gigantesco desiderato, sublinhe-se.

     A gravíssima questão ambiental e social está a demandar de há décadas ações em regime urgente-urgentíssimo, visto estarmos a enfrentar uma verdadeira situação emergencial planetária. De acordo com o referido estudo, observa-se ostensivamente

“[…] uma contaminação que está dando lugar a uma perigosa mudança climática e à degradação de todos os ecossistemas; a perda da diversidade biológica e cultural; o esgotamento de recursos vitais; o crescimento da população mundial acima da capacidade de carga do planeta; desequilíbrios insustentáveis crescentes, com uma quinta parte da humanidade que consome em excesso e outra quinta parte que sofre uma pobreza extrema; conflitos destrutivos associados a ditos desequilíbrios; etc.” [grifos nossos]

     É claro que ainda há saídas para nosso planeta e respectivas sociedades (animais, humanas, etc.), mas por certo não por muito tempo. A degeneração (em amplo e abrangente sentido) cresce a olhos vistos e, pelo andar da carruagem, não podemos alimentar grandes expectativas quanto à sobrevivência não apenas do planeta e dos seus recursos, mas também de todas as espécies que convivem conosco.

     Que nos resta esperar, então? Um futuro incerto, tumultuado, desgovernado, conflituoso e auto-destrutivo. A tendência preponderante parece ser esta. E o que mais atrai a atenção (dos mais conscientes e comprometidos com o planeta, que parecem ser em minoria) é o gritante desprezo dos governantes em sentido lato e das novas gerações que já vêm indelevelmente marcadas pelo símbolo da dissidia social, redundando num exacerbado egocentrismo suicida em massa.

     Da minha tese (“O homem: esse projeto mal-acabado”, 1976)“Haverá um momento em que o ser humano será seu próprio e único algoz, condenando-se pela eternidade e levando com ele sua única herança: o ódio, a vingança, o desamor e… o vazio existencial. Quem viver, verá…”.

***

(1) VILCHES, A.; MACÍAS, O.; PÉREZ, D. G. La transición a la sostenibilidad: un desafío urgente para la ciencia, la educación y la acción ciudadana – Temas clave de reflexión y acción. Documentos de Trabajo de Iberciencia, N. 01. In: IBERCIENCIA. Sevilla (ES): Junta de Andaluzía/Palacio de San Telmo, 2014.

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