Guerra entre vizinhos: o “Homem: esse projeto mal-acabado”

A sociedade humana e seus conflitos

Eu sou uma das milhões de vítimas dos meus vizinhos. E este pequeno (mas trágico) detalhe me acompanha praticamente desde a adolescência, em todas as partes do planeta pelas quais já tenha passado (que não foram poucas) e nelas tenha tido a necessidade de tolerar a “vizinhança”. O problema é histórico, secular, milenar até, mas, à medida em que a “modernidade e a educação” avançam, paradoxalmente diminuem as condições sociais de convívio entre o micro-cosmo representado por nossa residência e a dos vizinhos. Isto é insofismável.

***

          Tenho escrito muito a respeito, durante minha longa vida. Assim como também tenho enfrentado incontáveis conflitos que quase me levaram à prática de uma loucura, o que, invariavelmente e graças à interferência de terceiros (associada à minha capacidade de ponderação), acabaram por não ocorrer. Sorte minha… e dos vizinhos. Mesmo agora, a estas alturas da minha vida (septuagenário), sigo enfrentando este tipo de conflito intersubjetivo e, creiam-me, tem sido desgastante, desanimador, frustrante enfim, observar como o ser humano vem se degradando a olhos vistos, auto-destruindo-se, consumindo-se crescentemente por motivos cada vez mais fúteis, inócuos.

Dia desses, me deparei no canal NETFLIX com uma série que versa sobre tal problemática, sob o título original: “Fear Thy Neighbor” (“Teme o teu próximo” – 2014-2017). Esta série original da Netflix é composta por capítulos que relatam um determinado caso-problema (extraído da vida real), analisando-o em vários episódios, do início ao fim do problema abordado. Os capítulos expõem imagens reais do conflito, mescladas com teatralização por atores. Realmente, vale a pena assistir, motivo que me leva a recomendar tal série.

As armas são as culpadas?

Não! As armas são objetos inanimados, mecânicos, que precisam ser municiadas e manejados pelo homem para que surtam efeito – apesar do velho adágio popular que dita: “as armas as carrega o diabo!” -. Armamento (em sentido lato) é instrumento preponderantemente privativo dos órgãos de segurança pública e das Forças Armadas. Mas, como historicamente vem acontecendo – desde os primórdios das sociedades humanas – o homem sempre armou-se para enfrentar seu habitat e as espécies que o compõem, seja em situações de confronto ou para sua alimentação e sobrevivência.

O decurso do tempo se encarregou de atribuir outras utilidades para estes instrumentos mortíferos, o que fez com que elas fossem se aperfeiçoando e sofisticando a ponto de passarem a exigir verdadeiro treinamento técnico-científico para seu uso – pelo menos, aquelas mais sofisticadas -. Pari passu a essa amplificação progressiva da sua utilidade, de usuais objetos de uso comum em épocas mais primitivas, passaram a ser classificadas e regulamentadas pelo poder estatal, redundando em restrição do seu porte e uso. Assim é que, em nossos dias, os armamentos tornaram-se ferramenta usual do ser humano. E passaram, por consequência, a compor as estatísticas criminológicas relacionando-as com o número de armas disponibilizadas a determinada sociedade.

           Um destaque importante, quando comparado o Brasil aos Estados Unidos de América, é que, enquanto nós somos proibidos de possuir armas de defesa pessoal, nos EUA dita posse é permitida em todo o país. As armas são adquiridas em lojas de armamentos espalhadas por todo o país, e que ofertam desde um simples revólver calibre 32 a uma fuzil AR-15, submetralhadoras, pistolas automáticas de todos os calibres, balestras automáticas com carregadores contendo várias setas de ponta metálica, etc. Basicamente, todas as residências possuem algum tipo de armamento de defesa pessoal – embora, obviamente, este seja adquirido (na grande maioria dos casos) legalmente.

Os números correspondentes à relação “armamento de defesa pessoal x número de habitantes x taxa de homicídios” já mais que o comprovaram que não necessariamente existe tal relação entre ditas variáveis, tudo dependendo da educação da sociedade e dos seus componentes. Brasil, por exemplo, possui a taxa de oito armas para cada 100 habitantes, e a taxa de homicídio é de 20 por 100 mil. Nos EUA, a violência despencou na última década, enquanto no Brasil segue aumentando ostensivamente. Alemanha, Suécia e Áustria possuem uma taxa de mais de 30 armas por 100 habitantes, embora suas taxas de homicídios sejam baixíssimas, bem inferiores às do Brasil. “Honduras, o país mais violento do mundo, tem proporcionalmente muito menos armas (6 a cada 100 habitantes)” (NARLOCH/VEJA, 2017). Outro aspecto destacado pela reportagem desta revista, aponta outro contrassenso: “No Brasil, os estados mais violentos são justamente os que possuem menos armas legalizadas”. Outro dato importante e emblemático: “[…] a relação entre o número de armas legais e o número de assassinatos nos estados NÃO é diretamente proporcional. Juntos, os estados do Acre, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e Mato Grosso respondem por 33% das armas registradas na Polícia Federal. No entanto, estes cinco estados mais armados do nosso território têm apenas 9% dos homicídios do país, segundo o Mapa da Violência 2011 (VOITCH/O GLOBO, 13/04/2011).

Em realidade, está mais que comprovado, no planeta, que não há relação entre número de armas em mãos dos habitantes e taxa de homicídios. O que sim existe, em efetivo, é a educação da população, sua formação moral e ética, sua estrutura emotivo-social. No meu particular caso, sempre tive armas de fogo (e brancas, de setas, de chumbinho, de eletrochoque, etc.), mas não saí por ai matando, ferindo ou aleijando irresponsavelmente – embora, não nego, seja frequente a vontade de fazê-lo, diante da ignorância cada vez mais elevada do nosso povo em geral (políticos aí incluídos, em particular).

A título de conclusão…

Os conflitos intersubjetivos, a exemplo daqueles apresentados na série da NETFLIX, supra-referida – recomendo que a assistam -, expõe às claras o acirramento crescente em nossa sociedade mundial. Hoje, querelas inócuas que seriam facilmente solucionadas mediante um diálogo franco, aberto e EDUCADO, correm sério perigo de terminar em tragédias graves, gravíssimas e até mortais, com todos os seus rescaldos já mais que conhecidos (para os diretamente envolvidos e, claro, para suas famílias).

A tolerância, a educação, o convívio pacífico, o diálogo franco e aberto, a concessão, a mediação, enfim, todas as ferramentas jurídicas e/ou sociais que aí estão para serem utilizadas, simplesmente são ignoradas, optando-se pelo embate, pelo conflito agressivo, extremista e interpessoal. E nestes casos, seguramente quem perde são os próprios contendores e, logicamente, seus entes queridos.

solução? Sim, há. E a principal é o diálogo, desde que ambas as partes contendoras possuam equilíbrio e tato para sentarem, debaterem pacificamente e concluírem pela melhor saída para o impasse. Não há outro caminho para este tipo de impasse. A agressão, como solução, sempre gerará mais agressão, além dos potenciais e naturais rescaldos (ferimentos – leves, graves, gravíssimos -, morte, aleijamento, sequelas incuráveis – físicas e psíquicas -, encarceramento, etc. -). Com toda certeza, dentre os contendores, NINGUÉM sairá ganhando; ao contrário, seja qual for o resultado final da disputa, AMBOS serão afetados, prejudicados e condenados a um sofrimento desnecessário, que fatalmente será compartilhado por suas respectivas famílias, inocentes espectadores que por igual sofrerão as consequências dos virulentos contendores.

Reflitam, assistam à série e repensem seus modelos de conduta. Garanto-lhes que só lhes trará paz, alegria e felicidade ou, na ausência destes sentimentos, o mínimo que lhes propiciará é um alerta à reflexão profunda de cada um, responsável por suas atitudes ou suas omissões. Posso lhes garantir que minha mudança de comportamento – do extremamente violento ao apaziguador e ponderado – só me trouxe paz e harmonia (interna e no meu lar).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: